SBOC REVIEW

Aspirina adjuvante em câncer colorretal localizado com alterações em PI3K [▶ Comentário em vídeo]
Citação:
Martling A, Hed Myrberg I, Nilbert M, Grönberg H, Granath F, Eklund M, et al. ALASCCA Study Group. Low-Dose Aspirin for PI3K-Altered Localized Colorectal Cancer. N Engl J Med. 2025 Sep 18;393(11):1051-1064. doi: 10.1056/NEJMoa2504650.
Resumo do artigo:
O câncer colorretal continua tendo altas taxas de recorrência, apesar dos avanços terapêuticos. Evidências sugerem que a aspirina pode ter efeitos antitumorais por inibir a ciclo-oxigenase-2 (COX-2), cuja sinalização parece ser particularmente importante em tumores com mutações na via PI3K. Essas mutações ocorrem em aproximadamente um terço dos casos de câncer colorretal, geralmente envolvendo os genes PIK3CA, PIK3R1 ou PTEN.
A partir desse racional, foi conduzido o estudo ALASCCA (Adjuvant Low-Dose Aspirin in Colorectal Cancer), um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. O objetivo foi avaliar prospectivamente a eficácia da aspirina adjuvante em pacientes com câncer colorretal ressecado em estádios I a III, cujos tumores apresentavam alterações somáticas na via de sinalização PI3K. Foram incluídos indivíduos de 18 a 80 anos, com câncer de cólon em estádio II ou III ou câncer de reto em estádio I a III (AJCC 7ª edição). Os pacientes foram classificados em dois grupos: grupo A (mutações hotspot nos éxons 9 e 20 de PIK3CA) ou grupo B (outras variantes de impacto moderado ou alto em PIK3CA, PIK3R1 ou PTEN) e randomizados 1:1, dentro de 12 semanas após a cirurgia, para receber aspirina 160 mg/dia ou placebo por três anos, isoladamente ou em combinação com quimioterapia adjuvante.
O desfecho primário foi a recorrência do câncer colorretal no grupo A. Os principais desfechos secundários foram recorrência no grupo B, sobrevida livre de doença (SLD), sobrevida global (SG) e segurança.
A mediana de idade foi de 66 anos (31–80), 51,8% eram mulheres e 33,1% tinham câncer de reto. Alterações nos genes da via PI3K foram identificadas em 1.103 de 2.980 pacientes (37,0%) com dados genômicos completos. Dos 515 pacientes com alterações do grupo A (mutações hotspot nos éxons 9 e 20 de PIK3CA), 314 foram randomizados para aspirina ou placebo; e, dos 588 pacientes com as alterações do grupo B (outras variantes de impacto moderado ou alto em PIK3CA, PIK3R1 ou PTEN), foram randomizados 312.
O desfecho primário do estudo foi atingido. No grupo A, a incidência cumulativa de recorrência em três anos foi de 7,7% com aspirina versus 14,1% com placebo (HR 0,49; IC95% 0,24–0,98; p = 0,04). No grupo B, os resultados foram semelhantes: 7,7% versus 16,8% (HR 0,42; IC95% 0,21–0,83).
A sobrevida livre de doença em três anos também favoreceu a aspirina em ambos os grupos, com 88,5% versus 81,4% no grupo A (HR 0,61; IC95% 0,34–1,08) e 89,1% versus 78,7% no grupo B (HR 0,51; IC95% 0,29–0,88).
No entanto, não se verificou ganho estatisticamente significativo de sobrevida global com a aspirina adjuvante. A sobrevida global em cinco anos foi semelhante nos dois grupos, com 91,6% versus 90,1% no grupo A (HR 0,79; IC95% 0,37–1,68) e 93,0% versus 89,7% no grupo B (HR 0,68; IC95% 0,30–1,51), para aspirina e placebo, respectivamente.
Quanto à segurança, eventos adversos graves ocorreram em 16,8% dos pacientes do braço aspirina e em 11,6% do braço placebo, incluindo complicações pós-operatórias, trombose venosa profunda e infecções.
Portanto, o estudo ALASCCA demonstrou que a aspirina na dose de 160 mg/dia por três anos, usada como tratamento adjuvante, reduziu significativamente a recorrência do câncer colorretal tanto entre pacientes cujos tumores apresentavam mutações hotspot de PIK3CA (éxons 9 ou 20) quanto entre aqueles com outras alterações na via PI3K (PIK3CA, PIK3R1 ou PTEN). Assim, o ALASCCA fornece a primeira evidência robusta da eficácia desse reposicionamento terapêutico em um subgrupo molecularmente definido.
Comentário da avaliadora científica:
O estudo ALASCCA demonstrou, de forma prospectiva e randomizada, que a aspirina em baixa dose (160 mg/dia) pode reduzir a recorrência do câncer colorretal localizado com alterações na via PI3K. Os participantes foram distribuídos em grupos com mutações hotspot em éxons 9 e 20 de PIK3CA ou com variantes adicionais em PIK3CA, PIK3R1 e PTEN, acompanhados por três anos após a ressecção curativa. A incidência de recorrência foi significativamente menor no grupo aspirina em comparação ao placebo, validando o uso de biomarcadores genômicos como ferramentas de seleção de pacientes. Embora a aspirina tenha sido associada a uma maior incidência de eventos adversos sérios, o perfil de segurança é consistente com o uso já consolidado do fármaco.
Diferentemente de muitas terapias-alvo, a aspirina é um medicamento barato, amplamente disponível e globalmente acessível, o que a torna uma intervenção promissora. O desafio, portanto, está em aumentar o acesso aos testes genômicos necessários para identificar os pacientes candidatos. Isso evidencia a necessidade de estratégias de incorporação que viabilizem a testagem molecular de forma mais ampla e equitativa. Quando somados a evidências prévias, os resultados do ALASCCA apoiam a incorporação da aspirina no cuidado de pacientes com câncer colorretal definidos por biomarcadores genômicos.
Avaliadora científica:
Dra. Emily Tonin da Costa
Oncologista pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Título de Especialista em Oncologia Clínica pela SBOC/AMB
Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Fellowship em Pesquisa Clínica em Oncologia no Hospital Moinhos de Vento
Clinical Research Fellow no Latin American Cooperative Oncology Group (LACOG)
Instagram: @emilytonin
Cidade de atuação: Caxias do Sul/RS