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SBOC REVIEW

Ganho de sobrevida global com iCDK4/6 adjuvante em câncer de mama inicial

Citação:

Johnston S, Martin M, O'Shaughnessy J, Hegg R, Tolaney SM, Guarneri V, et al. Overall survival with abemaciclib in early breast cancer. Ann Oncol. 2025 Oct 17:S0923-7534(25)04948-8. doi: 10.1016/j.annonc.2025.10.005.

Resumo do artigo:

O monarchE é um estudo clínico fase III, randomizado, aberto, multicêntrico e global, desenhado para avaliar o impacto da adição do abemaciclibe na dose de 150 mg duas vezes ao dia por 24 meses à terapia endócrina (TE) padrão em pacientes com câncer de mama inicial receptor hormonal positivo (HR+), HER2-negativo, linfonodo positivo e com alto risco de recorrência. Esta atualização traz a análise primária de sobrevida global (SG), além de dados atualizados de sobrevida livre de doença invasiva (iDFS) e sobrevida livre de recorrência à distância (DRFS), com seguimento mediano de 6,3 anos, permitindo maior maturidade dos eventos e avaliação do impacto a longo prazo da estratégia adjuvante.

Entre julho de 2017 e agosto de 2019, 5.637 pacientes foram randomizadas na proporção 1:1 para receber abemaciclibe por 24 meses ou não, em adição à terapia endócrina adjuvante (cuja duração deveria ser de ao menos cinco anos). A população do estudo refletiu um grupo de alto risco clínico-patológico. 91% das pacientes foram incluídas na coorte 1, definida por ≥4 linfonodos positivos ou 1–3 linfonodos positivos associados a tumor ≥5 cm e/ou grau histológico 3. A coorte 2 (9%) incluiu pacientes com 1–3 linfonodos positivos e Ki-67 ≥20% como único fator adicional de risco, conforme o desenho inicial do estudo. As análises foram conduzidas na população por intenção de tratar (ITT).

Na análise primária de sobrevida global, verificaram-se 661 óbitos, sendo 301 no braço abemaciclibe + TE (10,7%) e 360 no braço de terapia endócrina isolada (12,7%). A adição de abemaciclibe resultou em uma redução de 15,8% no risco relativo de óbito, estatisticamente significativa (HR 0,842; IC95% 0,722–0,981; p = 0,027). A sobrevida global estimada em 7 anos foi de 86,8% no braço experimental versus 85,0% no braço controle, correspondendo a um ganho absoluto de 1,8%. O benefício foi amplamente consistente entre subgrupos clínicos, sendo mais pronunciado na coorte 1, que concentra pacientes com maior carga linfonodal e risco basal mais elevado.

Os benefícios previamente demonstrados em iDFS e em DRFS foram sustentados com o maior tempo de seguimento. O HR para iDFS foi de 0,734, com ganho absoluto de 6,5% em 7 anos, enquanto o HR para DRFS foi de 0,746, com ganho absoluto de 5,1%. Observou-se redução consistente das recorrências metastáticas precoces e tardias, bem como menor proporção de pacientes evoluindo para doença metastática no braço tratado com abemaciclibe (6,4% versus 9,4%). Importante destacar que, apesar do uso subsequente de inibidores de CDK4/6 no cenário metastático ser maior no braço controle, o benefício em SG foi mantido, sugerindo que o tratamento adjuvante possa de fato modificar a história natural da doença.

Em relação à segurança, o perfil observado permaneceu consistente com análises anteriores, sem surgimento de novos sinais de toxicidade tardia com o seguimento prolongado, sendo os eventos adversos em sua maioria manejáveis com medidas de suporte, ajustes de dose e interrupções temporárias.

Em conclusão, o monarchE demonstra que a adição de abemaciclibe adjuvante à terapia endócrina não apenas reduz de forma sustentada o risco de recorrência invasiva e à distância, mas também se traduz em ganho estatisticamente significativo de sobrevida global em pacientes com câncer de mama inicial RH+/HER2-negativo de alto risco. Esses achados consolidam o abemaciclibe como padrão terapêutico adjuvante nessa população, com perfil de segurança previsível e manejável, reforçando a importância da intensificação terapêutica precoce em subgrupos selecionados.

Comentário da avaliadora científica:

Após um seguimento mediano de 6,3 anos, o estudo monarchE demonstrou ganho estatisticamente significativo em sobrevida global com abemaciclibe no câncer de mama RH+/HER2-negativo no cenário inicial. Apesar de o ganho absoluto ser modesto (1,8%), este inibidor de CDK4/6 representa a primeira terapia a conferir este benefício desde a introdução dos inibidores de aromatase. Demonstrar ganho em sobrevida global neste cenário é um desafio, dada a expectativa de vida relativamente longa e a disponibilidade de terapias eficazes no cenário metastático.

Permanecem em aberto questões relevantes, como biomarcadores adicionais preditivos de benefício; o benefício relativo na comparação com ribociclibe adjuvante; a duração ideal do tratamento; e o potencial impacto em subgrupos específicos, incluindo pacientes com risco intermediário. Com um maior seguimento, será possível avaliar melhor a magnitude do benefício em sobrevida global, dado o risco de recidiva persistente ao longo dos anos.

Por fim, o monarchE consolida abemaciclibe + TE como uma opção padrão na adjuvância de pacientes com câncer de mama RH-positivo/HER2-negativo, linfonodo positivo, de alto risco.

 

Avaliadora científica:

Dra. Isadora Martins de Sousa

Oncologista Clínica pelo AC Camargo Cancer Center – São Paulo/SP

Oncologista Clínica no Hospital Leforte Liberdade – Rede Américas Oncologia

Instagram: @isamartinsdesousa

Cidade de atuação: São Paulo/SP