SBOC REVIEW

Nova estratégia de manutenção melhora PFS e OS no CPPC doença extensa
Título em inglês:
Efficacy and safety of first-line maintenance therapy with lurbinectedin plus atezolizumab in extensive-stage small-cell lung cancer (IMforte): a randomised, multicentre, open-label, phase 3 trial
Título em português:
Eficácia e segurança da terapia de manutenção de primeira linha com lurbinectedina mais atezolizumabe no câncer de pulmão de pequenas células em estágio extenso (IMforte): ensaio randomizado, multicêntrico, aberto, de fase 3
Citação:
Paz-Ares L, Borghaei H, Liu SV, Peters S, Herbst RS, Stencel K, et al; IMforte investigators. Efficacy and safety of first-line maintenance therapy with lurbinectedin plus atezolizumab in extensive-stage small-cell lung cancer (IMforte): a randomised, multicentre, open-label, phase 3 trial. Lancet. 2025 Jun 14;405(10495):2129-2143. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01011-6.
Resumo do artigo:
O IMforte foi um ensaio clínico de fase 3, randomizado, multicêntrico e aberto, desenhado para avaliar se a intensificação da manutenção de primeira linha melhora os desfechos clínicos em pacientes com câncer de pulmão de pequenas células em estágio extenso (CPPC-EE) que não apresentaram progressão após indução padrão com quimioimunoterapia. O racional do estudo baseou-se no conceito de “maintenance-after-induction”, direcionando a intervenção ao subgrupo de pacientes que efetivamente alcança a fase de manutenção e concentra grande parte da exposição terapêutica ao longo do tratamento.
Na fase de indução, pacientes elegíveis receberam atezolizumabe associado a carboplatina e etoposídeo por quatro ciclos. Aqueles que apresentaram resposta objetiva ou doença estável, sem evidência de progressão radiológica após a indução, com ECOG-PS 0-1, foram randomizados na proporção 1:1 para receber manutenção com lurbinectedina (3,2 mg/m2 IV) associada a atezolizumabe (1200 mg IV) a cada 3 semanas ou atezolizumabe isolado a cada 3 semanas. Aqueles randomizados para lurbinectedina deveriam receber profilaxia com fatores estimulantes de colônias de neutrófilos (G-CSFs) conforme diretrizes institucionais, salvo contraindicação. Vale ressaltar que este estudo excluiu pacientes com metástases em sistema nervoso central (SNC) tanto antes como após a indução, citando dados sugerindo atividade limitada da lurbinectedina em SNC.
O tratamento foi mantido até a progressão da doença, toxicidade inaceitável ou decisão clínica. No total, 653 pacientes iniciaram a indução, dos quais 483 foram randomizados para a fase de manutenção (242 no braço combinado e 241 no braço controle), configurando uma população clinicamente relevante e representativa de pacientes que respondem ao tratamento padrão inicial.
O desfecho primário de eficácia foi a sobrevida livre de progressão (PFS), avaliada por revisão independente centralizada, estratégia que minimiza vieses associados ao desenho aberto. A intensificação da manutenção demonstrou benefício estatisticamente significativo em PFS, com hazard ratio (HR) de 0,54 (IC95% 0,43–0,67; p<0,0001), refletindo uma redução clinicamente expressiva do risco de progressão ou morte em comparação ao controle.
Em relação à sobrevida global (OS), também foi observado benefício significativo, embora de menor magnitude: HR 0,73 (IC95% 0,57–0,95; p=0,017). Esse resultado é particularmente relevante no contexto do CPPC-EE, uma doença historicamente associada a prognóstico reservado e na qual ganhos de OS com estratégias de intensificação terapêutica são difíceis de demonstrar.
No que diz respeito à segurança, a combinação esteve associada a maior incidência de eventos adversos grau 3–4 em comparação ao atezolizumabe isolado (38% vs. 22%). O perfil de toxicidade foi predominantemente hematológico, consistente com o mecanismo de ação do agente citotóxico utilizado na manutenção, destacando-se anemia grau 3-4 (8%) e neutropenia grau 3-4 (7%). Esses achados reforçam a importância da seleção adequada dos pacientes, considerando reserva medular, comorbidades e capacidade de monitorização e suporte clínico durante a manutenção intensificada.
Comentário da avaliadora científica:
O estudo IMforte aborda de forma pragmática uma lacuna clínica relevante no manejo do ES-SCLC: a otimização da fase de manutenção em pacientes que demonstram benefício inicial com quimioimunoterapia. O delineamento é robusto, com randomização e avaliação independente de PFS, o que mitiga parte do viés inerente ao seu caráter aberto. Dois pontos críticos são o desenho com seleção pós-indução e a exclusão de pacientes com acometimento no SNC. Isso resulta em uma população enriquecida e limita a extrapolação para pacientes com progressão precoce, baixa tolerância ao tratamento inicial e metástases em SNC – um cenário frequente na prática real.
Do ponto de vista clínico, os dados sugerem que a intensificação da manutenção pode proporcionar ganhos significativos em PFS e, de forma relevante, também em OS, ao custo de aumento de toxicidade hematológica. Assim, a decisão de incorporar essa estratégia – que foi aprovada pelo FDA em outubro de 2025 – deve ser individualizada, considerando perfil clínico, reserva funcional e infraestrutura disponível para manejo de eventos adversos. A publicação tem potencial impacto em diretrizes futuras, especialmente se acompanhada de dados adicionais de qualidade de vida, duração de benefício e custo-efetividade, aspectos fundamentais para a adoção ampla dessa estratégia no CPPC-EE.
Avaliadora científica:
Dra. Priscila Jacob Pavaneli
Oncologista clínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP (HCRP-USP)
Oncologista no CTO – Centro de Tratamento Oncológico, com foco de atuação em oncologia torácica
Instagram: dra.priscilapavaneli
Cidade de atuação: Ribeirão Preto/SP