SBOC REVIEW

PATINA: iCDK4/6 de manutenção em câncer de mama HER2-positivo RH-positivo [▶ Comentário em vídeo]
Título em inglês:
Palbociclib for Hormone-Receptor–Positive, HER2-Positive Advanced Breast Cancer
Título em português:
Palbociclibe no Câncer de Mama Avançado, Receptor Hormonal-Positivo, HER2-Positivo.
Citação:
Metzger O, Mandrekar S, Goel S, Gligorov J, Lim E, Ciruelos E, et. al. Palbociclib for Hormone-Receptor-Positive, HER2-Positive Advanced Breast Cancer. N Engl J Med. 2026 Jan 29;394(5):451-462. doi: 10.1056/NEJMoa2511218
Resumo do artigo:
O PATINA é um estudo fase 3, aberto e randomizado, que testou o inibidor de CDK4/6 palbociclibe como estratégia de manutenção para pacientes com câncer de mama RH-positivo HER2-positivo (“triplo-positivo”). O racional seria a convergência biológica das vias de sinalização do HER2, do receptor de estrogênio e do CDK4/6, que abriria margem para um benefício da inibição combinada.
O estudo incluiu pacientes que haviam tido resposta parcial/completa ou doença estável após a indução com quimioterapia (taxano ou vinorelbina) e terapia anti-HER2. Após 4 a 8 ciclos de tratamento sem progressão, as pacientes eram randomizadas em uma proporção de 1:1 para receberem terapia endócrina e terapia anti-HER2 de manutenção, com ou sem a adição de palbociclibe. A terapia endócrina poderia ser inibidora de aromatase ou fulvestranto, e as pacientes na pré-menopausa deveriam receber supressão ovariana.
O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão (SLP) avaliada pelo investigador. Os desfechos secundários incluíram resposta objetiva, benefício clínico, segurança e sobrevida global.
De junho de 2017 a julho de 2021, foram randomizadas 518 pacientes (261 no braço com palbociclibe; 257 no braço controle). 68,1% eram pós-menopausa, com mediana de idade de 53,4 anos. 74% tinham doença visceral; apenas 3,9% tinham metástases em SNC. Ao final da indução, 70,1% dos pacientes tinham resposta parcial ou completa, e 29,3% doença estável.
Com seguimento mediano de 53,5 meses, a adição de palbociclibe resultou em SLP significativamente maior: 44,3 meses vs. 29,1 meses, com HR 0,75 (IC95% 0,59–0,96; p=0,02). A sobrevida livre de progressão estimada em 12, 24 e 48 meses foi de 84,9%, 65,2% e 46,5% no grupo intervenção, contrastando com 73,2%, 55,3% e 38,3% no grupo controle, respectivamente.
A ocorrência de resposta objetiva confirmada por RECIST 1.1 foi superior com palbociclibe (32,9% vs. 24,8%), com maior taxa de benefício clínico (88,9% vs. 80,9%).
Os dados de sobrevida global ainda estavam imaturos no momento desta publicação. No momento da análise, o HR era de 0,86 (IC95% 0,61-1,23); a análise final é planejada para após 247 eventos de morte.
O principal motivo de descontinuação do tratamento foi progressão de doença, o que ocorreu em 124 pacientes (47,5%) no braço palbociclibe e 136 (52,9%) no controle.
Eventos adversos grau 3 foram duas vezes mais frequentes no grupo tratado com palbociclibe (79,7% vs. 30,6%). Destes, o principal foi neutropenia (55,9% vs. 2,0%). Eventos adversos grau 4 foram observados em 10,0% dos pacientes no grupo palbociclibe e em 3,6% no controle. Não houve mortes atribuídas ao tratamento. Fadiga grau 2 ou mais também foi mais comum no grupo palbociclibe (grau 2: 22,2% vs. 12,9%; grau 3: 9,6% e 1,2%). Reduções de dose foram necessárias em 57,7% das pacientes, e 18% descontinuaram palbociclibe por eventos adversos (em geral, por neutropenia).
Portanto, no PATINA, em pacientes HER2+ RH+ que alcançam controle de doença após quimioterapia de indução, adicionar palbociclibe à terapia de manutenção proporcionou ganho clínico relevante de SLP, às custas de aumento de toxicidades (sobretudo, neutropenia).
Comentário da avaliadora científica:
Os primeiros dados do PATINA foram recebidos com entusiasmo no SABCS 2024 e são altamente relevantes para pacientes com câncer de mama metastático HER2-positivo e receptor hormonal (RH)-positivo. No entanto, alguns pontos devem ser considerados.
Primeiramente, é importante destacar que havia uma fase inicial obrigatória de indução com quimioterapia e bloqueio HER2. Ou seja, o PATINA não contempla a possibilidade de omitir a quimioterapia. Também vale observar que essa estratégia de manutenção só pode ser considerada caso a doença não progrida à terapia de indução.
O PATINA foi conduzido em paralelo com o DESTINY-Breast09, que demonstrou superioridade em SLP de trastuzumabe deruxtecana (T-DXd) com pertuzumabe em relação à estratégia CLEOPATRA. Ainda não está claro quem poderia se beneficiar de tratamento citotóxico prolongado com T-DXd e pertuzumabe e quem poderia se beneficiar da estratégia do PATINA. O DEMETHER (NCT06172127), um estudo fase 2 testando T-DXd de indução seguido de manutenção com duplo bloqueio HER2, pode ser elucidativo.
Embora um maior tempo de seguimento ainda seja necessário, idealmente com demonstração de benefício em sobrevida global, os dados do PATINA são altamente aplicáveis e comprovam o benefício da inibição combinada das vias HER2, hormonal e CDK4/6. Espera-se que, em um futuro próximo, possamos refinar a seleção de pacientes candidatas a essa estratégia, personalizando o tratamento.
Avaliadora científica:
Dra. Mayara Lopes Araújo
Oncologista clínica pelo Hospital Sírio-Libanês – São Paulo/SP
Oncologista clínica no Hospital Sírio-Libanês – Brasília/DF
Preceptora do Programa de Residência Médica em Oncologia Clínica, Hospital Sírio-Libanês
Instagram: @mayaralopes_
Cidade de atuação: Brasília/DF
Análise realizada em colaboração com a oncologista sênior Dra. Daniele Assad Suzuki.