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SBOC REVIEW

PSA para rastreamento do câncer de próstata: análise de 23 anos do Estudo Europeu

Citação:

Roobol MJ, de Vos II, Månsson M, Godtman RA, Talala KM, den Hond E, et al. ERSPC Investigators. European Study of Prostate Cancer Screening - 23-Year Follow-up. N Engl J Med. 2025 Oct 30;393(17):1669-1680. doi: 10.1056/NEJMoa2503223.

Resumo do artigo:

O Estudo Randomizado Europeu do Rastreamento para o Câncer de Próstata (ERSPC) teve como objetivo avaliar se o rastreamento para câncer de próstata através da dosagem do PSA levaria à redução na mortalidade câncer-específica (MCE). Apesar de dados previamente publicados demonstrarem uma redução relativa de 20% na MCE, o superdiagnóstico e supertratamento questionam o real risco-benefício desse rastreamento.

O ERSPC foi um estudo multicêntrico, iniciado em 1993, em que homens de 50 a 74 anos foram randomizados para serem convidados para coleta periódica do PSA ou para o grupo controle, onde nenhuma intervenção era oferecida. Em caso de positividade do PSA, uma biópsia da próstata guiada por ultrassonografia transretal era realizada. Na maioria dos centros envolvidos, valores de PSA ≥ 3 ng/mL eram considerados positivos. Alguns centros tinham um corte de PSA ≥ 4 ng/mL, ou ≥ 3 ng/mL com densidade do PSA ≤ 0,16, toque retal ou ultrassonografia transretal alterados. Um mínimo de 2 e um máximo de 8 convites para rastreamento eram oferecidos, com intervalos de 2 a 7 anos entre eles.

O desfecho primário do estudo foi a mortalidade por câncer de próstata, e o desfecho secundário, a incidência do câncer de próstata. Um total de 162.236 homens foi incluído na análise: 72.88 no grupo screening e 89.347 no grupo controle. A idade mediana dos homens incluídos foi de 60 anos. No grupo experimental, uma média de 2 rastreamentos foi realizada, com 83% dos homens tendo recebido, pelo menos, um rastreamento. Destes, 28% tiveram, pelo menos, 1 teste positivo, com 89% procedendo à biópsia.

Após 23 anos de seguimento, o estudo demonstrou uma redução relativa de 13% na mortalidade por câncer de próstata com o rastreamento (razão de risco de 0,87; IC 95% 0,80 - 0,95), um risco cumulativo de 1,4% no grupo experimental e 1,6% no grupo controle. A redução de risco absoluto da MCE foi na ordem de 0,22%. De acordo com os dados, foi necessário rastrear 456 homens e diagnosticar 12 casos para prevenir 1 morte por câncer de próstata.

A incidência cumulativa de câncer de próstata foi de 14% no grupo do rastreamento e 12% no grupo controle, com uma razão de risco 1,3 (IC 95% 1,26 - 1,33). Quando estratificado pela classificação de risco do câncer de próstata ao diagnóstico, esta razão foi 2,14 para baixo risco, 1,1 para risco intermediário, 0,95 para alto risco e 0,66 para doença avançada.

Comparando com os dados previamente publicados, os autores destacam que os dados do estudo atual reforçam o benefício do rastreamento por meio da coleta do PSA. Após um maior tempo de seguimento, a despeito de uma queda na redução do risco de mortalidade câncer-específica (após 16 anos de seguimento, redução de 20%; atual, de 13%), a diferença absoluta na redução de risco entre os grupos rastreamento e controle continuou aumentando ao longo dos anos (0,14% aos 16 anos e 0,22% aos 23 anos de seguimento).

Os autores concluem que a análise final do ERSPC demonstrou que o rastreamento através do PSA foi capaz de levar à redução de morte por câncer de próstata, e os dados a longo prazo foram mais favoráveis no perfil risco-benefício. No entanto, ainda é considerável o superdiagnóstico e a proporção de intervenções desnecessárias, devendo-se, portanto, concentrar esforços em estratégias de rastreamento que minimizem mais os possíveis danos, mantendo-se o benefício.

Comentário da avaliadora científica:

O rastreamento do câncer de próstata ainda é um ponto de grande controvérsia e discussão. Sendo assim, os dados do ERSPC, um estudo multicêntrico, com mais de 150 mil pacientes, e mais de duas décadas de seguimento, são de grande relevância na prática clínica.

O estudo demonstrou uma redução de 13% do risco de morte por câncer de próstata com PSA como método de rastreamento. No entanto, outros dados apresentados ainda levantam dúvidas em relação a essa estratégia: apenas 16% dos pacientes apresentaram PSA positivo; menos de um quarto das biópsias foram positivas para câncer de próstata; e a maior proporção destas fez o diagnóstico de doença de baixo risco, para a qual a vigilância ativa é uma estratégia comprovadamente segura.

Como o envelhecimento populacional é uma tendência mundial, e, portanto, o aumento na incidência do câncer de próstata é uma realidade, a busca por estratégias de rastreamento mais assertivas, visando a reduzir o número de biópsias e tratamentos desnecessários, é imprescindível. Precisamos selecionar melhor uma população que se beneficie da detecção precoce, associar métodos mais específicos de avaliação pré-biópsia e estratificar o risco para detecção de doenças clinicamente significativas.

 

Avaliadora científica:

Dra. Nathália de Souza Del Rey Crusoé

Oncologista clínica pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo – USP/SP

Título de Especialista em Oncologia Clínica pela SBOC/AMB

Oncologista clínica na Rede D’Or Bahia

Instagram: @dra.nathaliacrusoe

Cidade de atuação: Salvador/BA