SBOC REVIEW

Resultados promissores em carcinoma seroso de baixo grau de ovário com inibidor de CDK4/6
Título em inglês:
Phase II Trial of Ribociclib Plus Letrozole in Women with Recurrent Low-Grade Serous Carcinoma of the Ovary, Fallopian Tube, or Peritoneum: A GOG Partners Trial (GOG 3026)
Título em português:
Estudo de fase II de ribociclibe + letrozol em carcinoma seroso de baixo grau de ovário, tuba ou peritônio recidivado: um estudo do GOG partners (GOG 3026)
Citação:
Slomovitz BM, Weroha SJ, Deng W, Chon HS, Podder V, Jenkins Vogel MT, et al. Phase II Trial of Ribociclib Plus Letrozole in Women With Recurrent Low-Grade Serous Carcinoma of the Ovary, Fallopian Tube, or Peritoneum: A GOG Partners Trial (GOG 3026). J Clin Oncol. 2026 Jan 20;44(3):153-163. doi: 10.1200/JCO-25-01348.
Resumo do artigo:
O carcinoma seroso de baixo grau corresponde a menos de 10% dos carcinomas de ovário, e apresenta como características a alta prevalência de expressão de receptor de estrogênio (RE) e as baixas taxas de resposta à quimioterapia a base de platina. Tratamento com hormonioterapia, como inibidores de aromatase em monoterapia, é rotineiramente empregado, porém com respostas limitadas.
O GOG 3026 foi um estudo de fase II, aberto, de braço único, em carcinoma seroso de ovário de baixo grau recorrente, que empregou a combinação de letrozol (2,5 mg por dia) com ribociclibe (600 mg/dia, dias 1 a 21 de cada ciclo de 28 dias). Nele, foram incluídas pacientes com ≥ 18 anos com carcinoma seroso de baixo de grau de ovário recidivado, com doença mensurável por RECIST v1.1, ECOG 0-2 e funções orgânicas adequadas. O tratamento seria continuado até progressão de doença, toxicidade inaceitável ou descontinuação por outras razões. O diagnóstico anatomopatológico foi revisado centralmente. O uso de terapia endócrina prévia era permitido, desde que tivesse sido descontinuada ≥ 6 meses antes e que tivesse havido progressão de doença em sua vigência.
O desfecho primário foi taxa de resposta objetiva (TRO). Os desfechos secundários foram sobrevida livre de progressão (SLP), sobrevida global (SG) e taxa de benefício clínico (pacientes com doença estável ou respostas parciais/completas). Com base em dados históricos, a hipótese nula foi assumida como uma TRO ≤ 10%, enquanto uma TRO ≥ 25% foi considerada de interesse clínico. A resposta era avaliada por tomografia computadorizada ou ressonância magnética pelo RECIST v1.1 no baseline e a cada 12 semanas, e as respostas deveriam ser confirmadas pelo menos 4 semanas após documentação inicial. Após descontinuar o tratamento, o status de sobrevida era avaliado a cada 3 meses por 2 anos e após a cada 6 meses por 3 anos.
Entre 2018 e 2024, 74 pacientes fizeram screening para participar no estudo, e 51 foram incluídas. Destas, 49 foram elegíveis para as análises dos desfechos (2 não fizeram tratamento). A maioria das pacientes tinha estágio FIGO III (73,5%) ou IV (18,4%) ao diagnóstico, e >90% haviam realizado tratamento com cirurgia e algum tratamento sistêmico, sendo que 38,8% já haviam recebido 3 ou mais linhas de tratamento. Cerca de 32% das pacientes já haviam recebido alguma terapia endócrina e 14,3% já haviam recebido inibidores de MEK.
O estudo atingiu seu desfecho primário. Foi observada uma TRO de 30,6%, sendo descartada a hipótese nula. Em relação aos dados de sobrevida, com seguimento mediano de 37,7 meses, a SLP foi de 14,5 meses (IC 90% 10,1 a 28,8 meses), e a SG mediana foi 44,5 meses (IC 90% 31,8 – não atingido). A sobrevida global em 48 meses foi de 45%. A taxa de benefício clínico foi de 84%. No grupo de 15 pacientes que obtiveram resposta objetiva, a duração mediana de resposta foi de 21,2 meses. O evento adverso (EA) grau 3 mais comum foi neutropenia (41%), sendo nenhuma neutropenia febril. Descontinuação do tratamento por EA ocorreu em 4%, e 33% precisaram de redução de dose do ribociclibe. Houve 3 eventos adversos grau 5 (parada cardíaca, suicídio e íleo), os quais não foram atribuídos ao tratamento.
Comentário da avaliadora científica:
Historicamente, o carcinoma seroso de baixo grau de ovário foi tratado de maneira similar ao carcinoma de alto grau, apesar das características moleculares e biológicas distintas. Inibidores de aromatase e tamoxifeno já mostraram atividade nesta doença, mas com limitações: taxas de resposta abaixo de 15%. Os inibidores de CDK4/6 mudaram o tratamento do carcinoma de mama receptor hormonal-positivo HER2-negativo, com ganhos de SLP e SG em pacientes com doença metastática, quando associados à terapia endócrina. Considerando a plausibilidade biológica e os desfechos em câncer de mama, a ideia de utilizar inibidores de CDK4/6 em câncer de ovário de baixo grau é racional. A população do estudo é bastante variada em termos de estadiamento e de linhas prévias de tratamento – o que é razoável, devido à raridade da doença.
O estudo atingiu seu desfecho primário, mostrando uma taxa de resposta acima das médias históricas, além de uma duração de resposta prolongada. Por ser um estudo de braço único, não é possível compará-lo diretamente com outros tratamentos, mas a combinação de letrozol com ribociclibe se demonstrou ativa e bem tolerada. O GOG 3026 reforça a necessidade de continuar avaliando os inibidores de CDK4/6 de maneira prospectiva, em cenários de linhas mais precoces, com avaliação molecular e melhor entendimento dos mecanismos de resistência endócrina.
Avaliadora científica:
Dra. Laura Cereser Albaneze
Oncologista clínica pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Oncologista clínica no Hospital Nossa Senhora da Conceição e no Hospital Moinhos de Vento – Porto Alegre/RS
Instagram: @lauraalbaneze
Cidade de atuação: Porto Alegre/RS